Sunday, November 09, 2008


Bebes a última gota de um copo sem fundo, vira-lo ao contrário na esperança de o ver chover. Alarga-se a terra para te abrigar, sentes-te engulir. Os ponteiros rodam do avesso, arrastam-te num futuro que não queres repetir. Cantas. Passos largos pela rua, ombros tensos num olhar serrado. O que procuras de tão grande? De que te escondes de tão assustador? Os medos agarram-te, desembaraçam-te os gestos. Não sabes onde estão, só que estão por todo o lado. Passas na passadeira, aquela que construíram para os outros peões que não tu, e perguntas-te como será passar uma vez com o semáforo verde, como se todos os teus caminhos não fossem proibidos por bloqueadores carrancudos. Sentas-te no banco, choras o amanhecer. Choro contigo, quero esverdear todos os sonhos da tua vida. Por favor, não te deixes vencer.

Saturday, October 18, 2008

Encostas-te ao mundo como se estivesse a abanar, levas peças antigas na esperança de te encontrar. E rasgas o olhar triste por uma importância de outrora, como se a vida te despejasse e se fosse embora. Esperas a viagem que te leve ao centro, espalhas-te pela calçada do que és por dentro. E dás enquanto tiras o que te está a sobrar, anseias enquanto o autocarro não pode chegar. Apertas o sorriso e deixas magia, despedes-te e no teu corpo caminha alegria. Tens tantas histórias para semear por aí, e incrivelmente chove de mais em ti. Mas o segredo propaga-se ao anoitecer, nenhuma vitória se deixa vencer. E hoje espalho-te pela minha utopia, e escrevo os teus gestos em contos de maresia, para que os teus passos possam sempre ecoar e a tua solidão não te roube o luar.

Thursday, January 31, 2008


Senta-te ao meu colo, vamos brincar. Hoje é o meu dia de te levar a galope por aí. A seabra abana ao longe, sinto-te no vento. Vamos pelos campos descobrir o seu segredo, o que nos sussurra ao cair da noite. Chego os joelhos ao peito e abraço-os, tremo de frio e de tranquilidade. No horizonte pintam-se traços rosados, como a minha vida. Entras-me pelo colarinho da camisola, passo ante passo. Viras-me do avesso a sítios onde nunca tinha ido. Sinto-me infinitamente redutora, sem sentido, sem rumo. Talvez como uma gota frágil na praia, igual a tantas outras, que como não se vê de fora nem se conhece por dentro não percebe a importância do mar. Não sei como cheguei a este lugar e como não tinha chegado antes. Mostras-me que tenho que me entregar à nossa brincadeira, ir atrás do que agita as ondas. E trazes mais amigos, conquistadores como nós dos sonhos do mundo. E eles mostram-nos outras brincadeiras e deitam cá para fora outros campos, outras seabras.

Fecho os olhos e sinto-nos mais que nunca. Sinto que tens uma prenda para me dar e que ataste o laço ao meu pulso. Em cada momento vai-se desfazendo, principalmente quando caio e esmurro o joelho. E a pouco e pouco desliza o embrulho e liberta o que tem por dentro. E em tantas alturas sinto-me tão perto do desfeche só para descobrir que dentro daquele há tantos outros laços como nas bonecas russas na prateleira da avó. Mas não há nada como este nosso jogo, em que procuro as tuas respostas porque sabes que são as minhas. E quase me apetece voltar à praia ou ao lugar em que o peito abraçou as pernas e esconder o nosso embrulho na areia ou por baixo da terra. E assim podemos brincar para sempre.

E talvez descobrir que não há vitória ou derrota que supere o sabor do caminho.

Tuesday, August 14, 2007


Levantas-te sorrindo e estendes o gesto para me afastar a cadeira. Um calafrio passeia-me a espinha e descobre-me o corpo enquanto me sento. Rasgo-to de volta. Por momentos as palavras são-me imunes, leio-te as feições, as expressões, não ouço o que me dizes.

Ouço um tempo a preto e branco, figuras no jardim. Ouço-te enquanto passeias a mão dela, a prova de que o amor pode ser intemporal. Ouço-te levantar o chapéu em gesto de cumprimento, sorrir, sempre. Aceno levemente a cabeça e faz mais sentido o que dizes com o brilho do olhar. Sinto-me na tua cena, vestidos compridos e chapéus de chuva para o sol. Não te ouço a luta de classes, de igualdade de direitos, não te ouço as poupanças. Mas sinto a tua história de valores, a falta de razões para nos desunirmos. Sinto-te a partilha, a força de um abraço na tempestade, o tempo em que eramos nós contra a injustiça, e não os injustos no mundo. Sinto as tuas caminhadas pela rua, por não haver mais nada. Sinto o teu passo no manto de estrelas, o ar puro, longe de trânsito, do fumo que nos mata a vida e a alegria de viver. Sinto o teu sonho, de subir montanhas e passar a noite, em segredo, em paixão. e invejo-te.


O brilho no olhar muda com os anos, com a desexperiência. Tal como o sonho que vai nas costas do adolescente e tudo o que sobra dele no idoso é uma cifose insuportável. Os valores nascem e perdem-se com as folhas do Outono. A incompatibilidade da vida e da utopia levam-nos pelo caminho errado. O trilho dos valores é quase sempre o impossível de realizar no nosso contexto, o atalho cheio de silvas. E as pessoas acomodam-se. Na escolha, nas leis, na aplicabilidade do dia a dia. Porque é sempre "muito bonito falar" e "a realidade é diferente". E no fim não lutamos pela utopia, lutamos pela realidade. E o mundo gira e a curva das aspirações cai em flecha.


Não sonhem pelo que podem ter, sonhem com o que vos leva para longe, na vida, no amor. Talvez mais tarde o peso nas costas relembre as montanhas, o sol do que foram e seja mais fácil de suportar.


Obrigada pelo bocadinho de sépia, por te aproximares do que resta com a força com que o mundo vos uniu: levo nas costas um bocadinho do vosso quadro.

Monday, August 13, 2007


Não há contadores de histórias como os que as têm marcadas na pele. Nesses o passado enrola-se nos olhos, no sorriso, por todo o lado. E nem a vontade, nem os cremes milagrosos nem o elixir são capazes de o apagar. São corpos que o tempo acoxeou, paixões que o relógio esfriou. E em cada respirar há uma lição de vida que transparece no gesto, na coordenação do peito que sobe e desce, como tudo.

Não é fácil seguir pelo lado certo da estrada, nos sentimentos. Onde há duas pessoas há um choque, não importa a experiência ou os anos que se acumula de caminho. Em cada choque é precisa uma força sobrenatural para amortecer a queda sem amolegar o que se construiu por dentro. É isso que faz a diferença, nas relações, na vida: a capacidade de investir quando vale a pena.

Era tudo isto que passeava na sua cabeça naquele entardecer de verão. Doíam-lhe as pernas dobradas, cansadas da posição, da rotina. O horizonte adivinhava-se para lá da maresia, impenetrável. Tudo tinha sido um mar de rosas, até agora. O casamento, o travo do café entre lençóis, a viagem. Os anos a envelhecer junto a ela, a sua mão macia. Os segredos, as cumplicidades. Agora discutiam a toda a hora, o ciúme doentio, a vontade exagerada de se terem, de se perderem, a desilusão, o desinteresse, a desistência. O futuro é traiçoeiro. O que traz de bom torna rotina, o que traz de mau desespero. E o facto de as pessoas se habituarem a ele troca-lhes as prioridades. Então relembram o encanto inicial, a memória embrulha-lhes o pesadelo. Depois aparece alguém, um outro alguém. Tão simples, tão atraente. E assim roda o mundo, o simples torna-se complicado, sempre. Tornam-no as pessoas, a vida. Não há metades de laranja, meias luas. Há o amor e o que sobra do amor, mais raro, mais difícil de valorizar. Se soubermos que nenhuma saída nos pode salvar eternamente, talvez sejamos capazes de olhar para trás e fazer as escolhas certas para a frente. Tudo na vida se torna complicado a certo ponto. Enquanto houver duas pessoas a remar para o mesmo lado, é possivel. Foi assim que ele se levantou do penhasco e voltou para aquela que tinha sido sempre a sua casa.


Amor paga-se com amor, sempre.

Tuesday, August 07, 2007

Noite entrecortada de caminhantes e ruas iluminadas pela solidão. A luz fascina-me a cidade, apetece conhecer cada pedra, a memória de cada esquina.

Na calçada histórias soltas entrenham-se pelo roçar ténue do meu e do teu braço que acompanham o caminho em sentido contrário. Nas entrelinhas do sorriso adivinha-se um coxear ligeiro de quem tem muito para dar e aprendeu a esquecer como. A porta abre-se amena, aconchegante. No ar a viola chama sentimentos que nos entram por dentro, falam-nos de cumplicidades antigas e acalmam-nos o coração, tal maestro que nos condiz as linguagens.

Gosto de viajar pelos teus momentos, ser diferente quandos baralhas as tuas linhas nas minhas pre-definições. E as horas passam como o nervosismo, enquanto re-aprendo os teus gestos, a subtileza com que te deitas para fora ou passas a mão no cabelo.

Só se aprende com as histórias encarnadas na primeira pessoa. Um desabafo vale mais que mil personagens estranhas perdidas em coincidências, mais que mil discursos indirectos.
E contigo a vida embrulha-se tão intensamente que apetece embrulhar com ela, aprender com ela, ser contigo.

Da noite restou o sopro de saudade, da vontade de lutar por nós. Anseio-te no caminho.

Wednesday, February 07, 2007

sentei-me no chão a teu lado, enquanto o mundo anoitecia lá fora. olhei-te e segui os pirilampos que guardas no olhar, à procura da entrada para a minha saída, como tantas outras vezes. subi a tua escadaria e procurei o sentido no avesso de mais um dia. descansei-me em ti e devagar segredámos passados, suspirámos desejos rasgados do peito e reunimos as tempestades na tua e na minha mão soprando ao mesmo tempo e sorrindo para as ver desaparecer.

aprendi que na noite mais escura, quanto maior é o que temos maior o vazio que vemos. descobri que é dificil andar para a frente quando custa olhar para trás. que no dia mais frio o lume não acende e é tão fácil fechar os olhos e esperar pelo verão. mas ao procurar dentro do que somos, encontramos um momento em que apetece mudar, transformar o medo em vontade de vencer e sentir que depende de nós mais do que de qualquer outro alguém.

e por isso me sento a teu lado sempre que o mundo anoitece lá fora.
dou-te mais um pouquinho de nada para construirmos aquele tudo e surge o breve instante de podermos ser iguais a nós, largar as defesas com que a vida nos prende e adormecer o medo num abraço fechado porque no nosso mundo não temos receio de ficar.
o gostar não tem limites nem justificação.
mas é este gostar que nos conforta os sentidos e apaga o pó da tua e da minha alma, e sem querer há uma nova vontade de mudar no sorriso que nos adormece, para que o acordar nos lembre que somos o que queremos fazer de nós.

e incrivelmente em todos os dias que se viram do avesso, tens sempre mais um pouquinho de nada para partilhar e mais um vazio para me preencher.

é bom embrulhar o fim do dia em cumplicidade.
mas melhor é desembrulhá-lo na manhã seguinte e saltar da cama com um sorriso no coração por descobrir que não és só um sonho.

Saturday, October 07, 2006




a cidade já antiga, conta histórias em cada encruzilhada. num movimento apressado fogem sonhos que outrora brincavam pela avenida e agora a abandonam perdida no meio da noite.
nas paredes lêem-se pessoas entranhadas em relações confusas. como se as relaçoes pudessem não o ser. e uma banda sonora daquelas que abana os sentimentos acorda a vontade de as conhecer a todas, de lhes mostrar que fazem diferença só porque demoramos nelas um pouco o olhar. e queremos sorrir-lhes, numa confidencia de estranhos que lhes acalma o sentir porque todos estamos sós e passamos a vida a tentar fugir a essa certeza tão dificilmente contornável. mas em vez disso olham-se em segredos, choram e riem e vemo-las ao longe, desejando com toda a força ser elas ou fingir que o somos e mudar de caminho, saber porque choram, porque riem, e rir e chorar por outros motivos que não os nossos.

e então, despidos pelo medo de seguir em frente caímos de para-quedas num corpo que é o nosso e que não tem porta de saída. assim, olhamo-nos nos olhos e mal conhecemos este olhar com que vivemos o mundo e que tão pouco fala do que aprendemos a ser e queremos contar para quem vier. e o corpo tem uma estrada a seguir que afinal ajudámos a construir e sentimos os nossos passos namorar a calçada mal iluminada enquanto pontapeiam caixas de cartão esquecidas ao relento.

e seguimos, pé ante pé para não acordar os ligeiros suspiros de lembranças de um anoitecer por entre risos e conversas familiares.

e choramos.
não por ir, mas por não poder ficar.
não por partir, mas por nos partirmos em dois bocados que não sabem viver sozinhos.

Friday, August 18, 2006



vi as linhas nascerem por ti fora. formavam-se lentamente, numa elegância que te definia o rosto e te tornava inacreditavelmente real no cenário magnificamente inventado. a noite tocava ao longe os acordes que o tempo me ensinara a esquecer, e a ponte, iluminada ao fundo, tentava em vão competir com o brilho que lançavas. senti-me partida a metade. dividida entre a tua mão esquerda e a direita, não consegui optar por um beijo no teu sorriso ou um deitar a cabeça no teu ombro. espantado, estendeste-me ambos como se não pudessemos existir sem o que a pouco e pouco tinhamos vindo a ser. como se para chegar ao coração tivesse que escalar o resto do corpo e conhecer cada fenda para poder subir sem o risco de cair. e mesmo que caísse, mil vezes, saberia que nenhum tesouro abria com a primeira chave e podia aperfeiçoar a minha até encaixar perfeitamente e conseguir rodar sem qualquer dor, até sentires que podia entrar sem pedir e adormecer na almofada vermelha como se aquele fosse realmente o meu lugar.
Assim, fanática por aventuras, quis trepar-te vezes sem conta, saber o que eras nas mais pequeninas banalidades e aprender a brincar com o teu sobrolho, também pequenino, para que tu reparasses quando me nascesse um novo sinal e o pudessemos baptizar juntos.
Primeiro fui cruel, admito. arranquei-te o colete anti-balas e obriguei-te a despir todos os casaquinhos [do coração, para quem ainda não sabe] e a enfrentar a nudez da alma. e foste tão forte! sem um tremer, sem um hesitar, mexeste em cada bocado meu como um castelo que conquistas vezes e vezes sem conta e um dragão que cospe diamantes só de te ver.
e a ponte ao fundo deixou de ter sentido, pois eras tu o caminho que a minha seta apontava, como numa procissão de pirilampos, eras aquele que quis seguir para pisar as ervas daninhas do coração e continuar aquela noite perfeita. então, ao longo do passeio, demos as mãos e transferimos para aquele abraçar de pele todos os restinhos de nós, tudo o que eramos, o que queriamos ser, e a esperança de um futuro que agora nos envolve em linhas elegantes e nos torna inacreditavelmente reais num cenário magnificamente inventado.
obrigada meu amigo, meu amor.
e parabéns a nós (:

Saturday, June 17, 2006


sentou-se no ramo cortado da árvore e ouviu o passo da noite. caminhava devagar, estrela por estrela, para não acordar ninguém. olhou à sua volta para verificar se estava sozinho e escondeu a mão pequena no bolso. ansiara por aquele momento, na expectativa de descobrir o que estava dentro do pequeno livro. tirou-o para fora e olhou-o demorado. aliciado, sentiu a sua textura numa tentativa de adivinhar o seu recheio. a capa brilhava debaixo do lençol escuro, em letras prateadas onde se lia história de mim. olhou para a parte de trás do livro. na capa viam-se imensos nomes de pessoas que imaginou serem futuras personagens da sua vida. sorriu. estava ansioso por se reencontrar com menos palmo e meio. reler a sua história na incapacidade de a reviver. queria voltar a brincar naquele tronco, namorar às escondidas e saber o que vinha agora, depois da noite dar o seu passeio e voltar para casa. queria saber para onde ia.
abriu a primeira página.
em branco. virou-a. viu a segunda, a terceira. brancas. nervoso, folheou o livro numa tentativa de procurar um vestigio de si. nada. por fim, viu uma mancha colorida que espreitava a meio do livro. o coração batia desenfreado enquanto as mãos tremidas tentavam chegar à pagina. abriu-a. espantando, olhou-a e olhou-se. na página via-se o passeio da noite. caminhava de estrela em estrela para não acordar ninguém. e no meio da noite, lá estava ele, olhando-se de frente, sentado no tronco da árvore com o livro na mão. sorriu. o rapaz do livro seguiu-lhe o movimento. então, tirou um lápis do bolso e desenhou um caminho até ao horizonte.
é para ali que vou - disse.
e o rapaz do livro levantou-se do tronco da árvore e seguiu o caminho traçado no chão. passeou pelas páginas da sua vida, umas vezes à frente da noite, outras ao seu lado. quando era muito escura e fazia barulho dava-lhe mais estrelas para silenciar os seus passos. não voltou atrás. a memória era como os cromos que coleccionava. para quê repetir os momentos inúmeras vezes quando há sempre tantos mais para descobrir? e andou, de página em página, deixando para trás um registo invisivel do tesouro que estava escrito apenas dentro de si. e no horizonte, foi apenas mais uma história que vale a pena ler por se escrever com a tinta da coragem e da vontade de chegar ao fim. e no salto para a capa de trás, desapareceu, e deixou o seu nome e um livro em branco... para que viesse outro alguém e escrevesse a sua história.

para eu hoje tentar escrever a minha.

Sunday, June 11, 2006


a vida num cubiculo. quatro paredes sem interruptor. um apalpar da textura suja pelo tempo. o conhecer o chão e ter medo de o largar por ter medo de voltar. e percorrer a vida em voltas sem ver a alavanca entre os tijolos. muita sombra.

sei ser dança, no medo de escorregar pela noite da janela. com dissabor, na luz apagada no murmurar da consciencia cega. e enredo, no esquecer de lembrar de ser, nesta turbilhão de sentir numa fogueira em cinzas tantas vezes reapagada. sei ser um mar salgado no meio do nada.

e afinal, não ha sombra sem luz. e estava outra vez a sentir do lado errado. um obstáculo novo, este de sentir com dois lados, um a puxar para o ser e o outro para o querer ser. e a intransigencia dos sentidos criou uma fronteira num mesmo país arredondado, cheio de ventriculos e auriculas que se dividem e se iludem porque afinal batem e batem-se pelo mesmo. mas esquecem-se de bater, por vezes, ou esquecem-se de me dizer porque batem. e no deserto vejo ser-me ao longe, às escuras, sem saber se gosto.

e danço, num ritmo que ainda não ouço, gestos a desculparem outros gestos que se enganaram na batida. e deixo de ser mar por não merecer ser mar, há outros mares que precisam tanto mais de ter horizonte. e eu também tenho horizonte, afinal. tenho um sentido loiro na palma da mão que me aquece o abraço e me abre os olhos. afinal não eram paredes frias, afinal não havia escuridão, era eu que estava gelada, era eu que não conseguia ver.tenho que apagar de vez a fogueira e dançar toda a noite. longe do chão. tenho que deixar de ser mar para lá poder chegar, porque está visto, dentro de mim não consigo nadar.

Wednesday, May 03, 2006



tenho a alma turva e um sonho a esvoaçar pelo café escaldante. a colher dá voltas contra o sentido do tempo para que este não queime. tenho cócegas no destino. daquelas que riem tanto que chorar nem parece pior. não sei onde me vão atacar depois. não sei quando vão parar. e eu gosto de cócegas quando não estou cansada. mas agora, neste momentinho, esqueci-me de me mexer. e as cócegas cansam-me mais cada vez que penso que as tenho de enfrentar.mas o destino foge sempre no esvoaçar do café. e quando o café arrefece e o destino não tem por onde fugir, não presta.

perco o rumo. vejo o barco no fundo da chávena mas a colher não me deixa aportar. talvez esteja com cócegas, também. e não consigo perder um rumo em que o mapa se tornou parte de mim, do que quero ser. mudaram as estradas e não me avisaram. só ao destino. aquele que esvoaça no morrer do café. terei que o ver, saber encontrá-lo quando ele não me esperar. talvez traí-lo, como tantas vezes já me traiu. e fazer-lhe umas cócegas para que brinque comigo e se entrelace nas minhas mãos, que anseiam um entrelaçar. e gostará tanto deste brincar que se vai perder de riso e de choro e perceber como preciso de esvoaçar no café para poder brincar para sempre.

acho que vou despir a alma e lavá-la com água fria. talvez um pouquinho de neoblanc gentil. preciso de fechar os olhos e recomeçar. porque está um café na minha mesa que tem que vir para dentro de mim. para que os sonhos esvoacem cá dentro e possa chegar ao porto do fundo da chávena...

Wednesday, April 26, 2006

Acho que me esqueci de ir embora naquele entardecer. Talvez pensasse que a noite passava enquanto fechava os olhos. E fechei-os. Acho que foi aí que me perdi. Quando os abri já não eras tu, já não eramos nós. Já não sabia onde estava, só onde querias que estivesse.
Incrivel como vivemos a história sozinhos. Agarramos nas personagens e estendemos-lhes o nosso guarda-roupa, vestindo-as com a fantasia com que nos cantam.
Influenciam-nos, talvez. Mas alguém é sempre ninguém até escolhermos a sua cor. Tal como não somos ninguém enquanto os olhares nos atravessarem e não se demorarem um pouquinho no que temos para dar.
E é em vizinhanças fluorescentes que damos a mão pela rua fora, fugindo dos embaciados, dos opacos, dos sombrios. Pelo menos era por aí que gostava de ir vivendo... a saber que o sonho não vinha em nuvens cinzentas, que caminhava junto ao arco-íris mesmo sem me sentir a chover.
Mas depois veio o tal entardecer. Primeiro pensei que tinha a alma a carenciar de um oftalmologista ou talvez um raio de sol a baralhar-te com o individuo do outro lado da estrada. Depois achei que te tinha que levar depressa enquanto aflita te via descolorar. Foi aí que fechei os olhos enquanto ganhavas uma transparência que nunca quis ver. Mas voltei a abri-los e transparente era eu. O teu olhar já não me tocava, trespassava-me numa ferida que não sei se doía, que ainda não sei o quanto dói. Vejo agora que as cores que tinha eram apenas o reflexo dos outros. Aqueles que nunca soubeste partilhar.
Ainda vejo as estrelas que tens penduradas. Mas já não te vejo na noite que está a cair. Como caímos nós. Acho que afinal não eram tuas, roubaste-as na ânsia de querer tudo para ti. Acho que devia ter ido embora antes do anoitecer. Para não te ver transparente. Para não sentir o que sempre fui para ti.

Sunday, March 26, 2006


Sempre gostei de chamar as coisas pelos nomes. Como uma criança, criava a minha realidade e apelidava-a. Se existia em mim, era real e era minha. Um pouco egoísta, admito. Mas isto só para dizer que em tempos conheci um herói. E como herói que era, gostava de o chamar de herói. Ele barafustava: “Não sou nenhum herói” dizia-me. “Não tenho super-poderes, não sei voar, nunca salvei ninguém”. Eu sorria-lhe e pensava para mim como estava enganado e como tudo batia certo. Tinha muito orgulho em passear com ele. Ele pegava-me na mão e levava-me aos mundos mágicos que sonhávamos juntos. Neste mundo as coisas não eram simples coisas. Os rios não eram apenas rios, os pássaros não eram só pássaros. Como já disse, gosto de chamar as coisas pelos nomes. E o meu herói ensinava-me a escalar a montanha do medo, a correr no arco-íris dos sonhos e a manter-me afastada da gruta da solidão. Por vezes, levava-me para debaixo da árvore. Essa não tinha outro nome porque ao pé daquela todas as árvores não eram mais árvores. Era a nossa árvore. Era pequenina, como eu, e era onde ele mais gostava de despir o casaquinho do coração. Despia-o muitas vezes, pois era com o coração que dava cada passo e não com as pernas. Não sei como não tinha frio. As pessoas que eu conhecia eram todas muito friorentas e contavam-se pelos dedos as vezes em que despiam o casaquinho durante a sua vida. Tinham vergonha, não gostavam de mostrar o coração nu. Mas o meu herói, não. Por alguma coisa era um herói. Mas estava eu a falar da árvore. Naqueles dias encostava-me a ela e ficava a ouvi-lo falar durante horas. Ele sabia muitas coisas. Coisas que os homens desaprenderam uns com os outros e que por isso já nem sequer tinham nome. Mas eu ouvia-o e ficava muito feliz por naquele recanto do mundo haver um herói que não se tinha esquecido de falar com o coração. E ele falava-me muito de amor. Não falava de grandes casamentos nem de prendas caras. Falava-me das mãos enrugadas num entardecer à lareira. E eu que nem sabia o que era uma lareira sentia o amor dele enrugar-se no meu entardecer. E gostava. Esquecia-se muitas vezes dele próprio. Por vezes, ao fim de luas e luas dando-se aos outros, tinha que voltar atrás porque se tinha esquecido de si em casa. E então não se encontrava, há tanto tempo fora a última vez que pensara em si.
Este é o meu herói. Aquele que um dia me ensinou que para se ser alguém não é preciso ter super poderes mas saber-se partilhar os que se tem, não é preciso voar basta dividir um bocadinho de céu, não é preciso empurrar alguém para fora da linha férrea mas em cada dia conhecer a linguagem do coração.E não sei se já disse mas gosto de chamar as coisas pelos nomes. E para mim um amigo é um verdadeiro herói.

Wednesday, March 22, 2006

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estendeste-me a mão e pediste-me para sentar. li o teu gesto perfeitamente, ias-me contar uma história. sentei-me no tapete avermelhado e sorri como uma criança. precisava de sentir o chão para não doer tanto quando a história acabasse. adorava as tuas histórias. gostava que me levasses daqui em bolhas de sabão para aquele mundo... sabes? largaste os primeiros sopros e foste-me deixando pasmada enquanto me emaranhavas os cabelos e os sentidos. conhecia a tua inteligência mas admito, nunca pensei que conseguisses ler as mensagens escondidas nos nucleotidos que me batem no peito. achava eu que nem gostavas daquilo, enganaste-me bem. mas não... em cada personagem que acrescentavas à minha história eu sabia que tinhas que estar a ler-me o coração. em cada palavra sopravas-me os desejos mais fundos. deixaste-me a tremer.
- como consegues? - perguntei.
- sentindo-te. - respondeste.
era só isso? sentir-me? e eu que queria tanto perceber-me. passei a mão pelo meu braço devagar... não resultou. continuaste. fechei os olhos, criei um mundo vazio e deixei-te despejar os aromas que inventavas para mim. palavras. imagens. sonhos. senti-os e vivi-os em cada respirar e fui feliz. ali. e soube que tinha que lá chegar. ali e a todos os lugares que me davas, onde me levavas contigo. e se não conseguia encontrar o caminho traçado cá dentro precisava de ajuda. precisava de ti. do sofá preto das tuas histórias.
tocaste-me no braço ao de leve. e pela primeira vez senti-me e senti-te e senti que tinhamos uma ligação superior a todos os sentidos. e levantei-me do chão... não ia doer...
ao teu lado a realidade é muito melhor do que qualquer história.

Sunday, March 19, 2006

entraste e despiste o sobretudo castanho. penduraste-o atrás da porta e olhaste-me com medo. não sei porque o fizeste, aquele sempre fora o teu cabide. dizias gostar de tapar o meu para que saísse à rua com o teu cheiro vestido. dizias muitas coisas, no tempo em que ainda havia tempo. pegavas-me na mão e prometias aquela viagem. noites e noites com a alma acordada a preparar malas, escolher caminhos, a chegar mais longe do que me esqueceras ser possivel.
mas um dia partiras sem mim.
e agora voltavas sozinho da viagem da minha vida. trazias o sobretudo e pensavas que chegava. mas debaixo do sobretudo já não havia nada. nada do que eu sonhava haver quando te adivinhava debaixo dele.
encaraste-me cabisbaixo.
salguei.
nunca saberás como lamento.

Thursday, March 02, 2006


o amor é uma corrida numa pista redonda.

por muito que corras, irás sempre atrás de alguém que andará atrás de um outro alguém.

Wednesday, February 22, 2006

eras mudo, pensei. via com curiosidade os teus lábios mexer, palavras que se enfileiravam numa brisa de ar e dançavam à minha volta num ritmo alegre. mas não ouvia nada. em cada letra punhas uma nova cor e juntas formavam um arranjo primaveril que dava vontade de abraçar e seguir até ao fim do mundo. eras um ás de corações e soltavas os sentimentos com uma arte hipnotizante. e eu seguia as letrinhas que brincavam às cavalitas umas das outras e perdia-me nos teus encantos numa ânsia de rir e saltar-te também para as cavalitas, sonhando que a banda tocava para mim. nunca te ouvi desafinar tal eras experiente.
e um dia, seduzida pelos mundos que me mostravas, caí na asneira de querer imortalizar os sentimentos numa polaróide que arranjei para o coração. e fechei os olhos para disparar.
o silencio caiu aterrador e estranhei, mas tirei na mesma a fotografia. espantada, assisti à impressão em branco dos teus sentimentos. devia ter carregado mal, pensei. e repeti. novo vazio.
desconfiada, voltei a fechar os olhos, talvez fossem tão puros que não surgiam na câmara. mas veio outro silêncio. mais forte. porque fugias com os sentimentos? como é que um ídolo tem medo do escuro?
naquele instante esqueci-me de ti, de quem eras, de quem éramos, de quem queria ser contigo. dentro de mim havia um álbum de polaróides e nem um sinal de ti, nem um vislumbre das tuas palavras bonitas que dançavam à minha volta. naquele instante soube que não eras mudo, apenas não falavas com o coração. e as palavras deixaram de existir, dentro e fora de mim.

vou fechar mais vezes os olhos.
talvez assim consiga ver alguém que me leve para longe e não se evapore quando a noite for mais escura. talvez assim veja alguém que não seja um ás de corações. mas que tenha um.

Wednesday, February 01, 2006

uma história mais perdida numa efémera eternidade. uma mais de tantas outras cujos segredos morrem de alergia ao pó. duas mãos entrelaçadas debaixo da mesa do café, duas cumplicidades abandonadas no mais fundo da retina, invisíveis apenas aos mais atentos. dois destinos divergentes que se interceptam aqui e ali, múltiplas traições. traições de alma, de futuros e passados transformados num só. traições da dor e do adesivo que cura a dor. simultâneas. num ciclo de instabilidade e amor e mais desamor em crescente proporcionalidade. dois mares, duas ondas que correm e nunca se chegam a encontrar por morrerem na praia a pensar que fazem amor.
e um coração. uma batida a mais que não dorme na noite escura com medo de percorrer todo o corpo e não reencontrar o coração quando voltar.

nem tudo o que nos ata nos pode prender.
há sempre uma maneira de recomeçar.

Saturday, January 14, 2006



atraso o relógio. 5 minutos. 5 minutos apenas. é o que me basta para saber que ainda estás aqui, que não foste levado pela corrente. 1,2,3,4,5 minutos. intensos. tenho-te no desespero de te perder. não te amo. re-amo-te. já não te sei amar. só te soube amar há 10 minutos. agora não. mas quero, quero tanto. o relógio avança ponteiro a ponteiro num desalmar ensurdecedor. falta pouco, sei. arranco as pilhas, parto o vidro, salto em cima do relógio. em vão. passam os 5 minutos. acabou.

[para quê viver o passado quando nos persegue com uma faca na mão?]

adianto o relógio. 5 minutos. sabe bem. o ponteiro sorri-me irónico pensando que me tirou 5 minutos de existência. não sabe que o traí. quase nunca ninguém sabe que é traído. descanso pensando em todo o tempo que me resta, em todos os amores que virão e em quantas vezes poderei enganar assim o tempo. não te amo. tenho tempo que sobre. talvez um dia... [nem desconfio que é o tempo que me engana a mim].

[para quê viver o futuro quando vai acabar por nos matar?]

meu amor, vamos viver agora?
ensinas-me a amar?